sexta-feira, 30 de julho de 2010

camadas

O livro só. Dentro da tarde.

Dentro da tarde. Dentro da tarde.

O livro mais bem guardado.

Envolvido em camadas finas

de tardes alheias

de vozes alheias


Ele não sabe que é livro.

Nem as vozes sabem que são vozes.

Tudo envolto em tarde.


Tudo faz questão de ser.



velha

Aquela velha que habita em ti
Doce e besta
Envolta em fumaça e inveja

A velha que se desvira
Se desfaz. De dentro para fora
em cambalhotas senis.
Rastros de ossos.

Velha de avental e macumba
Velha e pomba
com tempo de sobra
com tempo lhe escorrendo pelos olhos

Olhos de inveja.
Dos amores que passavam por ali.
Dessas velhas que habitam em ti.


quarta-feira, 21 de julho de 2010

Espero que as tuas sejam das mais doces...

Quando diz suas palavras e quando libera seus desejos, você tem mortes atras de mortes, empilhadas e infinitas. Mortes suas mesmo. Ainda que seja doce. E espero que seja. Tens mortes rígidas e seguras de si.
Na curva que se estende de dentro de ti para o mundo a fora, as mortes se acumulam.
Pois nada é e nem nada será como pensas e nessa frustraçao tens a morte.
E entao tens o desejo, depois a vida, o real e tudo aquilo que nao te pertence, tudo aquilo que só pertence ao tempo. Depois, sim, você morre um pouco. Pouco a pouco.
Cada tentativa de tornar real o que está dentro de ti é pura morte. Cada vez menos. Amarga.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

flamenco

La torre
del más antiguo castillo
Más grande y oculto
Lleno de colores
velas y voces
Se convierte en ruinas
huracanes, vendavales.
Estructuras y ladrillos de baile
Dejando volar
revoluciones de toda
la humanidad
Así ella baila
sobre su descontento.
Pero, con la sonrisa
de los que eligen sus proprios caminos

quinta-feira, 8 de abril de 2010

oco

Teus santos dentro das caixas,
dentro das caixas, dentro do quarto
Teus santos envoltos em cores gritantes
Revelando o que nunca foi dito
Desses santos ocos que tens
nas estantes internas
Desses que te ajudam a dormir
São santos e mais santos
misturados, semi quebrados
tilintado, compartilhando vazios
Seus olhares não me dizem nada
só o que era para ter sido.
Tua alma vazia
Teu corpo fechado,
muito santo
Sinto muito.

quarta-feira, 24 de março de 2010

azia

Uma teoria inquestionável
irredutível, petrificada.
Um totem imponente
abstrato.
Palavra inexistente
quadriculada
o sumo do sumo
Teoria assexuada
Blocos que se sustentam
verticalizam
no meio do nada
Repetida, Reforçada.
Teoria em pedra no vazio.
Afirmativa. Teoria aflita.
Teoria
v
a
z
i
a

domingo, 21 de fevereiro de 2010

entardecendo, em tarde sendo

Não se vê ninguém. O absoluto se desfaz, esfarela. Nada concentrado, nenhum ponto sobressalta, nada se dilata. Tudo exatamente em seu lugar deixando o sol das quatro invadir, corroer, penetrar. Não se vê esquinas, dobras, descontínuos. Nada é interrompido.
Tudo flui. Tudo dança. Tudo entardecendo junto. E não tem ninguem lá. Só cadeiras, mesas, vidros, acessórios, inanimados.
O sol das quatro deixa tudo uma coisa só. Entardecendo.
Já sentiu que pode entardecer? Como todas as outras coisas. Você compondo o ambiente. Não mais existindo. Só entardecendo.

O sol das quatro. Chega a doer.