domingo, 21 de fevereiro de 2010

entardecendo, em tarde sendo

Não se vê ninguém. O absoluto se desfaz, esfarela. Nada concentrado, nenhum ponto sobressalta, nada se dilata. Tudo exatamente em seu lugar deixando o sol das quatro invadir, corroer, penetrar. Não se vê esquinas, dobras, descontínuos. Nada é interrompido.
Tudo flui. Tudo dança. Tudo entardecendo junto. E não tem ninguem lá. Só cadeiras, mesas, vidros, acessórios, inanimados.
O sol das quatro deixa tudo uma coisa só. Entardecendo.
Já sentiu que pode entardecer? Como todas as outras coisas. Você compondo o ambiente. Não mais existindo. Só entardecendo.

O sol das quatro. Chega a doer.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

0,00

Extrato bancário
O substrato social
maquinário inteligível
fenômeno paranormal

Subsídio da alma
poder extraviado
substância anti subversiva

Suco concentrado
de substituto do subsecretário
Subumano subornado
súdito de um extrato

meu saldo
esgotado

A ave que o poeta cria

A Ave Maria.
Arrítmica,
sacolejando penas gastas
A ave Maria
Perdida em tremeliques
samba falso
e avenida
Sem dono
e opção
Sem rotina
e sem gaiola
Vou rezar por você
Agora
e na hora de sua morte
Amém

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

canto

Uma luz tênue
amarelada
um ponto sem expansão
sem pretensão
de ser algo a mais

simples luz
uma porção limitada de solidão

nem tudo o que a escuridão leva embora
nem tudo o que a claridade torna excesso

uma luz no canto do quarto
luz no canto do mundo

domingo, 17 de janeiro de 2010

simples. nunca simplório

Flor prendada
feita de linha
linho
Um miolo de botão
Flor de pano estampado
não é rosa cálida
É flor de pano
calada mesmo
Cheia fofa.
Ela é ponto sem aroma
saltando sutilmente aos olhos
Quase pronta.
Dançando nas mãos da senhora
que lhe da forma, vida e cor
ela sabe que ja já vai dar samba
esse jeitinho dela de ser flor

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

lobos

Loucos. Somos loucos
vivemos num samba eterno
de loucura explícita.
Vivemos na corda bamba
que repousa sobre nossas incertezas
Eternos loucos
Frágeis e fortes
cheios de vida e amores
Enquanto tudo parece morto a nossa volta
dançamos como lobos
num ritual apocalíptico
Dançamos para manifestar
a eterna leveza de ser o que se é
Em meio à trevas, cavernas
vales profundos e negros
somos nós mesmos.
Verdadeiros Nós.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

espelho

As palavras não ditas
Presas em celas eternas
Sem fim

Replicam-se pelos
Corredores escuros que vem
De dentro de ti

Enquanto teu canto for dor

Enquanto teu tempo for água corrente

Teu corpo será feito de vento
Tua alma entregue ao mundo

Será resto remoído, ruminado
Rastreado, retardado.
Será resto.

Teu rosto.
Teu resto.