O tempo atravessado em flecha na garganta
Pensou que talvez fosse melhor retroceder
Alguns passos talvez. Talvez ninguém perceba
Reduzir-se em pó numa tarde qualquer
quando nada se espera. Então sumir pra dentro.
Constatou a morte pura da noite anterior,
num gesto único dos mutilados.
(Aos que se atrevem a verdade dança no canto dos olhos)
Morreu ali. Na altura do peito. No abraço sem volta.
domingo, 27 de novembro de 2011
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
a língua dobrada num ângulo reto,
o veneno lento que não chega a existir,
a pausa. lacuna diabolicamente eterna. Não é daqui.
mas e se eu te contasse dos caramujos, caracóis
debaixo da minha pele
cobertos de epiderme e segredo
sentindo tudo sem sentir
num nó sutil e orgânico?
desses que se formam espontaneamente
quando o dia invade corpo adentro sem cerimônias.
e quando tampouco se pode entender certos tons de cinza.
vim falar sobre a aflição da potência
que rodeia c-a-d-a palavra em velocidade de borboleta
mas me perdi.
Nesse furacão singelo. na curva inquieta da asa
o veneno lento que não chega a existir,
a pausa. lacuna diabolicamente eterna. Não é daqui.
mas e se eu te contasse dos caramujos, caracóis
debaixo da minha pele
cobertos de epiderme e segredo
sentindo tudo sem sentir
num nó sutil e orgânico?
desses que se formam espontaneamente
quando o dia invade corpo adentro sem cerimônias.
e quando tampouco se pode entender certos tons de cinza.
vim falar sobre a aflição da potência
que rodeia c-a-d-a palavra em velocidade de borboleta
mas me perdi.
Nesse furacão singelo. na curva inquieta da asa
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Completamente crua.
Parece não ver.
E certas vezes parece até não sentir.
Branca.
Poucas vezes a vi com uma sede corrosiva.
Sua fome parece surgir na cabeça,
Talvez ela pense em comida mais do que deveria.
Se alimenta para calar fomes mudas.
Calar fomes mudas.
Parece sobreviver. Sempre.
Mesmo em tardes amenas,
Na doçura do momento.
Nada de desfrutar. Sobreviver.
Ainda que levemente alegre.
Dessas alegrias bobas, festivas.
Ela vive na periferia.
Vive na periferia de si mesma
Equilibrando-se na própria escassez.
Parece não salivar.
Parece não crer em nada.
Da última vez que foi vista
Vagava silenciosamente
...dentro de si mesma.
E certas vezes parece até não sentir.
Branca.
Poucas vezes a vi com uma sede corrosiva.
Sua fome parece surgir na cabeça,
Talvez ela pense em comida mais do que deveria.
Se alimenta para calar fomes mudas.
Calar fomes mudas.
Parece sobreviver. Sempre.
Mesmo em tardes amenas,
Na doçura do momento.
Nada de desfrutar. Sobreviver.
Ainda que levemente alegre.
Dessas alegrias bobas, festivas.
Ela vive na periferia.
Vive na periferia de si mesma
Equilibrando-se na própria escassez.
Parece não salivar.
Parece não crer em nada.
Da última vez que foi vista
Vagava silenciosamente
...dentro de si mesma.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Ele disse que não me via há muito tempo
Realmente. Meses.
Poucas coisas pareciam ter mudado.
Talvez um sofá, livros ou
Talvez até as sombras das árvores ali de fora
Tudo era mais denso
Tudo parecia fazer questão de existir. Sabe?
Então ensaiei mentalmente o que diria naquele momento esquisito
(e então descobri que gosto do gosto desses momentos estranhos)
Ensaios são inúteis. Me entreguei num nó de palavras sem volta.
Ele lembrou. “ lógico que me lembro. Pelo tom da tua voz...”.
Foi assim que percebi que ele não era humano. Pelo menos não até agora.
E não sei como isso me escapou da ultima vez que o vi. Como não perceber esse tipo de coisa. Mas ele não era mesmo.
O que ficou foi o tom da voz.
Como se nada mais importasse
depois dessa coisa sem medida
sem ensaio, ritmo. Sem verniz.
O tom.
Assim tão seco,curto.
essa forma de reconhecer e lembrar
tem uma febre nisso tudo. Sente?
Instintivo,
animalesco.
Realmente. Meses.
Poucas coisas pareciam ter mudado.
Talvez um sofá, livros ou
Talvez até as sombras das árvores ali de fora
Tudo era mais denso
Tudo parecia fazer questão de existir. Sabe?
Então ensaiei mentalmente o que diria naquele momento esquisito
(e então descobri que gosto do gosto desses momentos estranhos)
Ensaios são inúteis. Me entreguei num nó de palavras sem volta.
Ele lembrou. “ lógico que me lembro. Pelo tom da tua voz...”.
Foi assim que percebi que ele não era humano. Pelo menos não até agora.
E não sei como isso me escapou da ultima vez que o vi. Como não perceber esse tipo de coisa. Mas ele não era mesmo.
O que ficou foi o tom da voz.
Como se nada mais importasse
depois dessa coisa sem medida
sem ensaio, ritmo. Sem verniz.
O tom.
Assim tão seco,curto.
essa forma de reconhecer e lembrar
tem uma febre nisso tudo. Sente?
Instintivo,
animalesco.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
monstro
Assim como se a melancolia fosse líquida
E escapasse sutil e discreta pelos poros da pele
e então envolvesse o corpo num suor voluntário
Ele era assim envolto na própria melancolia do ser
Como se ela fosse sua parte mais crua e eterna
E como se nada mais restasse além dela
depois de um sopro de vida
Ele era assim melancólico.
A cabeça acariciava o ombro num gesto redondo e dengoso. Triste.
Chorava mágoas inventadas
Sem dúvida era desses que os dias se passam
mais dentro que fora.
Quando caminhou na minha direção
a melancolia escorria pelas pernas e braços
Talvez tudo fosse intenso demais dentro dele
e ele mesmo não suportasse.
E tão humano ele era.
Ainda que de um certo ângulo
pudesse ver algo assim. Uma espécie de monstro.
É que as vezes o corpo não lhe cabe.
E escapasse sutil e discreta pelos poros da pele
e então envolvesse o corpo num suor voluntário
Ele era assim envolto na própria melancolia do ser
Como se ela fosse sua parte mais crua e eterna
E como se nada mais restasse além dela
depois de um sopro de vida
Ele era assim melancólico.
A cabeça acariciava o ombro num gesto redondo e dengoso. Triste.
Chorava mágoas inventadas
Sem dúvida era desses que os dias se passam
mais dentro que fora.
Quando caminhou na minha direção
a melancolia escorria pelas pernas e braços
Talvez tudo fosse intenso demais dentro dele
e ele mesmo não suportasse.
E tão humano ele era.
Ainda que de um certo ângulo
pudesse ver algo assim. Uma espécie de monstro.
É que as vezes o corpo não lhe cabe.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
em chamas
Ele não disse nada
Quando sentou ao meu lado
já estava em chamas
Assim sem perceber a ardência que lhe tomava
fazia pequenos movimentos com as mãos
em ações banais
atípicas aos que fervem
Seu calor quase me envolvia
e então pensei em mudar de lugar
e depois. depois não
achei que minha atitude
pudesse assim beirar o preconceito
e lá estava ele em chamas
e nós envoltos em silêncio
o silêncio absoluto dos desconhecidos
Quando sentou ao meu lado
já estava em chamas
Assim sem perceber a ardência que lhe tomava
fazia pequenos movimentos com as mãos
em ações banais
atípicas aos que fervem
Seu calor quase me envolvia
e então pensei em mudar de lugar
e depois. depois não
achei que minha atitude
pudesse assim beirar o preconceito
e lá estava ele em chamas
e nós envoltos em silêncio
o silêncio absoluto dos desconhecidos
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
radioatividade
- Tudo que passou não tem fim...- Foi sua constatação árida depois de alguns minutos de silêncio, que logo se transformou em fumaça com um último trago no cigarro
Sabia que de qualquer forma ele nao a escutava. Há muito tempo não escutava suas palavras. E também seus silêncios, o que de certa forma parecia algo ainda mais triste. Sabia que aquele olhar a atravessava e que em alguns instantes soltaria uma dessas perguntas cinzentas sobre o dia a dia, dessas que incluem comidas, horarios ou transitos.
- Hoje faz um mês que voltei da viagem a Itália. Aquilo tudo foi uma loucura...Uma semana completamente só e perdida, sem saber o que fazer com o tempo nas mãos. Aquela organização falsa e superficial dos que viajam sozinhos e toda a comida quando nem sentia fome, os cafés e o vazio. E agora isso tudo me preenche, só consigo sentir carinho pelo que passou. Tudo ainda me afeta. Acho que as coisas do passado são pedras radiotivas que emanam essa coisa pra sempre...
- Radioatividade?
- É.
- Tudo continua nos afetando. Talvez ainda mais! Como se o tempo deixasse tudo mais maduro e pudéssemos provar infinitas vezes das mesmas experiencias. Podemos provar mil vezes da mesma fruta e o gosto se modifica...
Mastigando as palavras assim devagar, com um olhar baixo e vazio. Ela era uma catarse amorfa sentada no sofá.
Ele era o que sempre foi:
- Já são duas da tarde...Vamos comer alguma coisa?
Sabia que de qualquer forma ele nao a escutava. Há muito tempo não escutava suas palavras. E também seus silêncios, o que de certa forma parecia algo ainda mais triste. Sabia que aquele olhar a atravessava e que em alguns instantes soltaria uma dessas perguntas cinzentas sobre o dia a dia, dessas que incluem comidas, horarios ou transitos.
- Hoje faz um mês que voltei da viagem a Itália. Aquilo tudo foi uma loucura...Uma semana completamente só e perdida, sem saber o que fazer com o tempo nas mãos. Aquela organização falsa e superficial dos que viajam sozinhos e toda a comida quando nem sentia fome, os cafés e o vazio. E agora isso tudo me preenche, só consigo sentir carinho pelo que passou. Tudo ainda me afeta. Acho que as coisas do passado são pedras radiotivas que emanam essa coisa pra sempre...
- Radioatividade?
- É.
- Tudo continua nos afetando. Talvez ainda mais! Como se o tempo deixasse tudo mais maduro e pudéssemos provar infinitas vezes das mesmas experiencias. Podemos provar mil vezes da mesma fruta e o gosto se modifica...
Mastigando as palavras assim devagar, com um olhar baixo e vazio. Ela era uma catarse amorfa sentada no sofá.
Ele era o que sempre foi:
- Já são duas da tarde...Vamos comer alguma coisa?
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